V O L T A R 

MÚSICA, MEMÓRIA & ESPAÇO NO CORTIÇO VIVO


"Não comunicamos aos outros senão uma orientação,
visando ao segredo sem entretanto nunca poder dizê-lo
objetivamente (...) Estamos diante de um ponto importante
em torno do qual giram as interpretações recíprocas do sonho
pelo pensamento e do pensamento pelo sonho.
A palavra interpretação torna excessivamente rígida essa mudança
repentina de opinião. De fato, estamos tratando agora da unidade
da imagem e da lembrança,do misto funcional da imaginação e da memória."
Gaston Bachelard, A Poética do Espaço
(1978: 206-207)


Como tem acontecido com certa freqüência nestes últimos anos, fui procurado por um grupo de alunos com um projeto nas mãos e um desejo no coração. A fala afoita e a paisagem das possibilidades embargando a voz e tumultuando a proposta. Depois de amenizada a ansiedade, eu pude entender melhor a proposição. Tratava-se de um belo projeto de extensão universitária oriunda dos alunos de graduação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU-USP) e que contava com alunos de vários outros institutos da universidade: o Cortiço Vivo.

Queriam que eu participasse da semana de imersão do projeto que tentava ampliar-se para além do corriqueiro diagnóstico da utilização de um prédio inacabado na rua Sólon, no bairro do Bom Retiro, em São Paulo. As situações de risco com o prédio inacabado, com a ausência de equipamentos mínimos de segurança, uma história conturbada de expropriações e embargos da fiscalização da prefeitura da cidade, incentivaram os alunos a intervirem naquela comunidade com o desejo de concretizar o diagnóstico e elaborar um plano de intervenções para melhor habitá-lo e regularizá-lo. Assim, a proposta ganhava contornos mais nítidos e ambiciosos do que a rotineira prospecção-exercício para estagiários de arquitetura.

Mas, o que faria um filósofo da educação neste sentido?

Complicando um pouco mais as coisas, minha postura filosófica se espraia por um prisma muito particular. Do ponto de vista de onde tentamos enxergar o mundo e experimentarmos a nós próprios, exerço uma hermenêutica simbólica. O que vale dizer: jornada interpretativa, de cunho antropológico, que busca o sentido da existência humana nas obras da cultura e das artes, através dos símbolos e imagens organizados em suas narrativas (Ferreira Santos, 2004).

Curioso jogo das palavras que desvelam significações verticais: não denominei a hermenêutica de técnica de interpretação, mas de jornada interpretativa. Por quê? Porque entendemos, desta forma, que qualquer tentativa de compreensão do mundo (e através do mundo, a compreensão de nós mesmos), se dá ao acompanhar o movimento das próprias narrativas. O hermenêuta (ainda que, aparentemente, numa leitura solitária) não se encastela em seus referenciais teóricos para depois esquartejar o texto e esmagar as entrelinhas (linda expressão de Clarice Lispector) tal como o personagem Jack, O Estripador, herdeiro de uma anglo-saxã filosofia analítica e de um modus operandi aristotélico e cartesiano. Para complicarmos, ainda mais, este processo simbólico, afirmamos de início, que esta jornada se dá num círculo hermenêutico onde oscilam a busca de sentido nas coisas e a percepção de que somos nós mesmos que atribuímos sentido às coisas. Tentamos, então, aliar rigor epistemológico ao vigor vivencial, aliar a sistematização dos métodos às experiências com a verdade da busca, aliar a razão (pois não se trata de nenhuma apologia ao irracionalismo ou à improvisação incompetente) à sensibilidade; numa razão sensível (Maffesoli, 1997) ou num racionalismo poético (Bachelard, 1996), num clima de mudança paradigmática. A expressão pedagógica de tal jornada interpretativa é uma educação de sensibilidade (Ferreira Santos, 2003 e 2004).

Mas, por quê? Porque trata-se da percepção de que a educação possui um fim em si mesma e não se adequa a finalidades instrumentais. A educação não é um meio para atingir algo (educação para o trabalho, educação para a cidadania, educação para a terra, educação para a inclusão, etc...). Ela própria é a finalidade última de suas práticas: trazer para fora a humanidade potencial que há nas pessoas (humanitas) - percebamos aqui, de passagem, que as crianças são também concebidas (nesta abordagem) como pessoas. Clássica fórmula dada já no seu étimo latino: ex ducere... trazer para fora, conduzir para o exterior, ajudar a parir... destino parideiro (maiêutico) do velho mestre, Sócrates (Fétizon, 2002). Dar vazão à potência que se inscreve na corporeidade das pessoas.

Como preconizava Merleau-Ponty (1971 e 1992), não temos um corpo: nós somos o nosso corpo. E, assim entendida a corporeidade: como um nó de significações vivas e vividas, sua textura, tecido, entre-tecido, trama e urdidura que são, ao mesmo tempo, culturais, sociais, biológicas, psicológicas e ontológicas; dão-se na relação de um eu-com-o-Outro-no mundo.

Os elementos de uma outra racionalidade (de conciliação de contrários, trajetividade, mediação e estruturação narrativa, que podemos nomear de racionalidade hermesiana), nos ajudam a afirmar que a linguagem gestual é, na realidade e em profundidade, a gesticulação cultural de uma corporeidade íntegra e não-dissociada pela discriminação reflexiva de natureza verbal. Esta sim, discriminação reflexiva dicotômica pois que divide as coisas em pólos opostos; ao mesmo tempo, de natureza verbal, isto é, elimina a potencialidade das imagens para reduzi-las ao conceito; e também, tardia, pois que aprendida na instituição, por excelência, equipada para isso, a escola (em todos os seus níveis, do infantil à pós-graduação).

Assim sendo, o que propus na semana de imersão no Cortiço Vivo era uma oficina de música & memória (que costumo oferecer ao programa da Universidade Aberta à Terceira Idade - USP) que tangenciasse também a questão do espaço ocupado e das formas simbólicas de organizá-lo e vivenciá-lo. Nesta atividade educativa, o centro organizador das atividades é a audição de temas e canções que possibilitem a rememoração de um determinado passado (angustiante ou alegre, mas de qualquer forma significativo), ao que passamos a tentar integrar a uma história social mais ampla. Desta forma, os fatos são re-contextualizados e re-significados de forma a possibilitar repensar o futuro próximo. A imaginação e a memória se recombinam com a preocupação constante de uma re-equilibração antropológica .

Portanto, assim, eu poderia contribuir com o conhecimento maior das pessoas concretas que ali vivem para além dos perfis sócio-econômicos e, desta forma, dialogar com seu universo mais íntimo e que se exterioriza nas relações comunitárias e nas reivindicações, formas de pressão e defesa de direitos. Numa palavra: o exercício da cidadania passa, necessariamente, pelo jogo profundo das subjetividades e seus processos simbólicos.

Mesmo sem conhecer, de antemão, os moradores do cortiço da rua Sólon, organizei uma pequena amostra de canções e temas relacionados com minhas próprias expectativas de suas origens. Como conhecia o bairro de minhas antigas apresentações musicais nas peñas bolivianas e chilenas (anos 70 e início dos anos 80), bem como conhecia a forte presença nordestina na região, a seleção organizada sortiu o efeito desejado.

No salão comunitário organizamos as pessoas presentes ao redor do aparelho de som e iniciamos a conversa com uma tradicional loa de abertura, ou seja, um "pidido de incelença": Trata-se de uma ladainha que é a forma nordestina de pedir licença aos moradores da casa para que a função (a cantoria dos cantadores) possa ser feita ali. Concedida a permissão, então se inicia a cantoria com o oferecimento de petiscos e aguardente de cana pelos donos da casa na grande maioria das expressões da cultura popular.

Evidentemente, é a forma simbólica de reconhecer a propriedade do espaço e, humildemente, pedir licença para o trabalho a ser realizado. Desta forma, os espaços são reconhecidos e se instaura a possibilidade de um diálogo mais efetivo e afetivo.

A escolha do fio narrativo para obter a mescla ideal de memória e imaginação, despertando imagens-lembranças, foi a audição de temas ligados à presença dos migrantes na cidade de São Paulo. Uma parte significativa dos moradores presentes tinha, em média, 40 anos de idade. Portanto, poderiam se lembrar de canções que permearam o imaginário paulista e que provinham do nordeste. Em especial, alguns temas de forró dos anos 70 (Luiz Gonzaga, Trio Nordestino, Os Três do Forró, etc...). A importância destes temas é que eles consubstanciaram a paisagem da migração. Às quatro horas da manhã, ao pegar o ônibus para ir ao trabalho, o migrante tinha à mão, colado ao ouvido, o pequeno rádio à pilha que, com sua voz metálica, tocava as músicas que lhe ligavam à terra natal novamente. Mesmo que, em meio a uma outra paisagem urbana e agressiva, impessoal e produtivista. O trajeto era a viagem onírica ao coração de seu canto próprio. Na duas acepções da palavra: canto como rincão original e canto como fruto do cantar.

Relembrando a origem inglesa do for all, pudemos remontar a paisagem nordestina antes da migração até a reconstituição da casa original.

De certo, não se trata de uma casa específica, mas a casa imaginária, onírica, que, rapidamente, nos possibilita mergulhar na lembrança de um tempo primeiro. Os temas utilizados favoreciam destacar determinados aspectos da casa que catalisavam a organização simbólica da casa.

Para aqueles que não tinham esta mesma origem nordestina, utilizamos temas correlatos próximos e, mais especificamente, do interior do estado de São Paulo, norte do Paraná e Maranhão, além de alguns temas bolivianos, tendo em vista um boliviano morador presente na oficina que, mesmo embriagado, agradeceu-nos por várias vezes a possibilidade de rememorar e compreender o significado de vários aspectos cotidianos do universo altiplânico.

O tema principal no fio narrativo era a organização simbólica da casa em que a mulher assumia o centro e o controle do coração da casa: o forno de barro ou de lenha . Ao redor deste centro aquecido e aquecedor, todas as outras tarefas são distribuídas. A sala ou quarto onde o homem recepciona os convidados e lhes conta as histórias ao findar o trabalho na terra. O quintal das crianças onde os animais, os esconderijos e os tesouros infantis sustentam o primeiro cosmos. O tanque, as bacias, as latas de água onde a lavagem assume o valor da renovação na corrente das águas do rio... as cantilenas, o bater das roupas, as peças coarando ao sol. O pilão esperando os grãos e o socador para marcar o ritmo da criação e da vida, macerando o tempo e ritmando o cancioneiro.

A frente da casa caiada para marcar a diferença com o agreste e adornada com suas plantas, jardins, cerca e portão demarcando o espaço íntimo e a circulação das ruas do bairro. Neste hiato, o lugar dos namoros, na transição para fazer parte da família. Todos os temas musicais escolhidos ajudavam a recompor os valores simbólicos destes detalhes e a propor uma outra forma de atualização destes valores no novo espaço do cortiço.

Neste sentido, percebíamos no olhar dos moradores a revivência de paisagens simbólicas no devaneio que a música propiciava e que lhes possibilitava um exercício de recentramento no vendaval que representa a vida no centro urbano. Neste recentramento, as virtudes da casa primeira começavam a ser cogitadas em sua atualização no cortiço, refuncionalizando seus espaços. Suas falas e intervenções, sua linguagem gestual, demonstravam isso. Já estávamos fazendo isso ao utilizar o espaço do salão comunitário como sala de visita, de músicas e estórias, de gesticulação cultural..

Esta virtude tem sido, me parece - em minhas singelas reflexões e vivências - o motivo principal da mobilização, organização e defesa de seus direitos, nos aclarando a constituição cultural de seu modo de existir e nos ensinando que não se trata de julgá-los ou categorizá-los a partir da falta ou deficiência de alguns elementos constitutivos do nosso modo de existir urbanóide. Mais que adaptá-los ao modo de vida urbano, caberia explorar a riqueza de adaptar o modo de vida urbano à pluralidade de seus migrantes e imigrantes.

Ainda não saímos da constituição estrutural excludente de nossa sociedade capitalista neoliberal de acumulação ampliada de capital em que se acumula, agora, não só o capital mas também as relações humanas coisificadas. Portanto, no hiato entre o discurso (modista e acrítico) da inclusão e as práticas concretas de exclusão, estamos ainda vivendo a oclusão de todos.

Será apenas mais um jogo de palavras - de criança ou de filósofo?

Vejamos: do latim occlusione, oclusão é o ato de fechar, de obliterar, de tapar uma abertura natural do organismo, como se diz em fisiologia. Que fazemos na escola (instituição privilegiada de ação da sociedade que alí se espelha e se forma) senão fechar as possibilidades de nossos alunos do contato com outros modos de existência e inviabilizar para cegos, surdos, mudos, paralíticos, portadores de síndrome de Down e de qualquer outra necessidade especial, migrantes e imigrantes, senão, o fechamento das possibilidades de re-afirmarem-se em sua pessoalidade e abrirem-se às possibilidades potenciais de sua humanitas? Nossas práticas concretas são oclusivas ainda que, por dever de ofício, deva nomeá-las de oclusão simbólica. Fechamos as pessoas - nossos alunos e semelhantes - a um único e soberano modo de existir: branco, adulto, ocidental, rico, macho, racional e "normal".

Àqueles que acabam se constituindo como "sombra" deste modelo único e etnocêntrico, só resta a prática complementar da oclusão: a reclusão. Que nada mais é do que (do latim reclusione), o ato ou efeito de encerrar num espaço único, submeter a um controle absoluto, apartar da sociedade privando-os da liberdade numa instituição: penitenciárias, manicômios, hospitais, lares assistencialistas; tudo a depender, evidentemente, da "infração" cometida: ser diferente. Possuir e vivenciar outro modo de existir.

Um cortiço pode ser uma forma de reclusão. Caberá aos seus moradores se re-apropriarem do espaço e converterem o prédio da rua Sólon num espaço plural e vívido. Nossos alunos podem auxiliá-los no diagnóstico arquitetônico e instrumentalizá-los com formas de intervenção que, compreendendo seu próprio universo simbólico, possam articular com uma vida mais significativa. Mas, é a eles que cabe a decisão última: fazer do espaço próprio, a vivência de um sonho, mobilizado por uma imagem-lembrança. À revelia dos decretos e normas da ABNT.

Neste sentido, muito alvissareira, foi a proposta de continuar a oficina de Música, Memória & Espaço, desta feita, ministrada por alunas participantes do projeto Cortiço Vivo que me procuraram, posteriormente, para que com uma seleção prévia de temas e canções e uma orientação inicial, pudessem dar continuidade à intervenção.

Por isso, minha insistência, como forma de contribuição ao debate, em reafirmar a revisão das práticas pedagógicas na recuperação de uma velha educação de sensibilidade que se paute pela educação como um fim em si mesma: para que as pessoas possam ser elas próprias, através do conhecimento do mundo e, consequentemente, de si.

Aqui não se trata de eufemizar o caráter gritante das diferenças, por condescendência, mas de aprender outras ricas possibilidades de ser. Na tarefa educativa, insistir em construir uma casa de pássaros: gwyra rupá, como dizem os guaraní - tempo de aprendizagem como crianças, como pássaros, numa casa de telhado forte, mas sem paredes. Ali, a água que refresca, os grãos do alimento, o tempo do divertimento e das brincadeiras, do canto e o espaço livre para continuar o vôo. Sem paredes.


Dedicado ao malungo,
arquiteto das trovas ibérico-medievais da caatinga,
ouvindo seu canto ancestral,
Elomar Figueira de Mello

 



Marcos Ferreira Santos, é professor Doutor da Faculdade de Educação da USP, docente e pesquisador do Centro de Estudos do Imaginário, Cultura e Educação (CICE).
É autor de Crepusculário: conferências sobre mitohermenêutica & educação em Euskadi e organizador de Imagens de Cuba: a esperança na esquina do mundo





REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BACHELARD, Gaston (1996). A Poética do Devaneio. São Paulo, Martins Fontes.
BACHELARD, Gaston (1978). A Poética do Espaço. São Paulo, Abril Cultural, Col. Os Pensadores, 181-354.
FERREIRA SANTOS, Marcos (2003). A Pequena Ética de Paul Ricoeur nos caminhos para a gestao democrática de ensino: refletindo sobre a supervisao, a diretoria de ensino e a escola. Suplemento Pedagógico Apase, v. II, n° 11:1-6.
FERREIRA SANTOS, Marcos (2004). Crepusculário: conferências sobre mitohermenêutica & educação em Euskadi. São Paulo, Editora Zouk.
FERREIRA SANTOS, Marcos (org.) (2002). Imagens de Cuba: a esperança na esquina do mundo. São Paulo, Editora Zouk.
FÉTIZON, Beatriz (2002). Sombras e Luz: O Tempo Habitado. São Paulo, Editora Zouk.
MAFFESOLI, Michel (1997). Elogio da Razão Sensível. Petrópolis, Vozes.
MERLEAU-PONTY, Maurice (1971). Fenomenologia da Percepção. Rio de Janeiro, Freitas Bastos.
MERLEAU-PONTY, Maurice (1992). O Visível e o Invisível. São Paulo, Perspectiva, 3a. ed.

 

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