PÓS-MODERNIDADE E EXUBERÂNCIA
Louis L. Kodo
"No fundo, não somos nós que aprendemos uma parte do mundo; limitamo-nos a ser o obstáculo no qual a luz se detém." Baudrillard De um Fragmento ao Outro
A exuberância do que hoje se presentifica como a condição pós-moderna está, como quer Albrecht Wellmer, na sua capacidade de rechaçar as tiranias das totalidades.1 Se hoje já não se pergunta por uma razão totalizante, ou por um único sujeito, pergunta-se, incessantemente, por um sentido, isto é, por algo que possa servir como um suporte entre a perda de sentido e a agoridade. Se o grande paradigma é o da desconstrução,2 ou como quer Lyotard, de uma simples ruptura com o pensamento representativo, e com o terrorismo do signo e do significado, nunca, no entanto, se comeu tanto signo e tanto significado, e nunca se deixou de lado tantos lotes de representação.
Se não há mais uma razão totalizante no universo pós-moderno, não há, também, uma verdade única. O que há, enfim, é uma sociedade que procura se integrar ou compreender a paisagem que a priva de sentido e que coloca em suas mãos todos os sentidos.
A pós-modernidade, creio, é a resposta moderna a si mesma, ou seja, é o seu apogeu. Assim, é o instante em que as leis ou os movimentos que vinham criando as condições para legitimar os saberes e as ações modernas, verdadeiramente, referendaram seus relatos. O que se deu, então, foi que o pensamento, por tanto apego a razão, dissolveu-se no inconsciente, acabando por negar a pessoa e o sujeito que apareciam em um número indefinido de máscaras; na política, viu-se o poder se dissolver em simulacro; na epistemologia, deu-se a dissolução da verdade no texto ou a negação da realidade no processo interminável da interpretação.3 No entanto, negação e dissolução não devem significar o fim. Devem, sim, estarem próximas das noções de perda e de perdição. Enquanto “a perda é um questionamento do ser em geral, a perdição é um acidente no curso do ser, isto é, enquanto a perda designa o desaparecimento de um ser localizável, a perdição implica na inexistência prévia de todo ponto de referência, onde todos os referenciais estão fora de uso. Na perdição nada é situável, nem em qualidade, nem em quantidade. E o que existe no estado da perdição é uma soma de sensações cujos títulos não figuram em nenhum registro: sabe-se apenas que, de um certo ponto de vista improvisado, uma sensação C sucedeu a uma certa sensação B, a qual sucedia a uma certa sensação A; mas nada é dito, nem quanto à natureza dessas sensações, nem quanto à ordem na qual aparecem”.4
Com efeito, se a realidade se desprendeu da lógica de certas ordenações morais, políticas, éticas etc., o que restou foi o “estado irradiado do valor”,5 onde parece não haver nenhuma referência, porque elas se transformaram numa epidemia de simulação. Como quer Baudrillard, “a revolução já aconteceu em toda parte, mas não do modo que se esperava. Em toda parte, o que foi liberado o foi para passar à circulação, para entrar em órbita. Com certo recuo, pode-se dizer que o fim inelutável de toda liberação é fomentar e alimentar as redes. As coisas liberadas são fadadas à comutação incessante e, portanto, à indeterminação crescente e ao princípio de incerteza”.6 Incerteza, porque toda força contida nos movimentos que se liberaram a partir do choque entre a perspectiva tecno-industrial e uma face da intelectualidade, que deseja estender a cultura a todo mundo, trouxe a idéia da impossibilidade de se mudar o mundo, o seu imaginal, ou as suas relações. Mas, e aí? Aí, é que a metáfora de que o homem “já não mais fita diretamente, com seus próprios olhos, o mundo real à procura do referente”7 não diz muita coisa. O que interessa é que o homem se liberou para o fausto, e que nele integra realidade e sonho, presente e presente, afastando-se tanto das referências de ruptura da jovem modernidade, como das idéias de tradição e progresso da imatura modernidade. Creio que o que se deu foi que o homem aprendeu a distinguir o poder da história e o da natureza. E sob tal distinção, desgosto e dor foram deixados para os pintores da pós-modernidade: os intelectuais. Não é à toa que a academia vive o que vive: o distanciamento e a legítima aproximação das novas forças do cotidiano.
Para Finkielkrault, venceu-se quase tudo na pós-modernidade, ou seja: “o despotismo foi vencido, mas não o obscurantismo. As tradições estão sem poder, mas a cultura também (...) os indivíduos não estão mais privados de conhecimento... mas que conhecimento conhecem? (...) Ora, no momento em que a técnica, pela interposição da televisão e dos computadores, parece capaz de introduzir nos lares todos os saberes, a lógica do consumismo destrói a cultura. A palavra permanece esvaziada de toda idéia de formação, de abertura ao mundo e de cuidado da lama. Doravante, é o princípio de prazer – forma pós-moderna do interesse particular – que rege a vida espiritual. Agora, não se trata mais de fazer dos homens sujeitos autônomos, trata-se de satisfazer seus desejos imediatos, de diverti-los pelo menor custo”.8 Que elemento da cultura disse que as opções devem se fechar ou, sob uma ética, serem levadas por determinadas mãos? Quem nomeou que a abertura de todos os meios de comunicação à linguagem comum – do senso comum –, pode, necessariamente, destruir a cultura? Quem disse que a cultura é um legado de todos? E não é uma questão de falta de leitura de bons livros, como quer Allan Bloom,9 o que vai conduzir ou reforçar a mais fatal tendência humana (segundo este autor): a de crer que tudo o que existe é o aqui e agora. Intelectuais como Bloom e Finkiekraut acreditam que sob a agoridade só restam escombros, e que a cultura, por isso, sofreu o seu mais duro golpe. Mas em que tempo se produziu tanto, leu-se tanto, criou-se tanto? Se se criou merda, criou-se, por outro lado, obras memoráveis. A extensão de todos os bens a uma infinidade de mãos parece ferir os doutos, ou ainda, os que no fundo amam os velhos segredos que eram guardados em pequenas celas e só eram erguidos por velhos sábios ou por homens – ditos – bons.
Se a intenção no caminho da modernidade não era a de abrir todas as suas possibilidades nomotéticas, a ação das vanguardas foi impiedosa nesse campo da desconstrução. O Dadaísmo, por exemplo, veio para eleger o escândalo, para destruir o bom-senso e, como fim, romper com qualquer tipo de equilíbrio; o Surrealismo, valorizando o mistério e a imaginação contra a lógica, impulsionou o automatismo psíquico (na escrita) e o emprego passional e irracional das imagens. Por fim, queria a criação de técnicas que provocassem os sonhos despertos e as forças obscuras do inconsciente. Se, no tempo de suas realizações, Dadaísmo e Surrealismo se constituíram em referências ou em pontos de exclusão e crítica da cultura burguesa, eles, de alguma forma, estavam processando o velho e inconsciente desejo burguês: o da dissolução dos últimos traços dos valores conquistados no século XIX, como o positivismo, o cientificismo etc,.
Ao mesmo tempo em que as vanguardas se autoproclamavam como agentes de uma nova forma de expressão, uma grande explosão tecnológica criava um novo mundo, como resultado de um grandioso progresso material. Aparecia, assim, a época da velocidade. Época que logo assistiria à crise da sociedade liberal burguesa, com as duas grandes guerras mundiais.
O que se dá, então, é a evolução dos valores burgueses, que aos poucos vão suspender a falsa idéia de moral, e atingir a rota de todos os signos e todos os objetos. O que se arriscava era uma trajetória de progresso que, por mais que irradiasse desastres, pudesse apontar para uma estrutura de grande força. Hiroshima, Auchwitz, Vietnan, Camboja, a corrida espacial, Cuba, etc., ou qualquer outro acontecimento, só serviram para legitimar o paradoxo do próprio universo burguês. Se ele precisava produzir, precisava de consumidores, sejam eles de armas, de doenças, de chips ou de bonecas. Na estrutura de valor de um mundo que se guia em função da perspectiva de alto consumo, nada mais importa. Se os Beats gritaram, se Bob Dylan invocou as misérias e as belezas do mundo contemporâneo, ou se na Primavera de Praga ou nas ruas de Paris (68) uma vanguarda ainda tentou mostrar o homem e sua exaustão, tudo isso já fazia parte de uma invenção que se desdobraria no universo fractal.10
As forças de vanguarda de representação burguesa desejaram a explosão do todo burguês, pensando que essa explosão as conduziria a uma outra representação. Mas, a explosão do sujeito, do significado, do signo e da verdade burguesa, fez derivar um outro universo burguês, muito mais sábio e muito mais eficiente. O que se deu foi que, com essa explosão, tudo saiu de seu próprio campo ou de seu significado, e passou a se integrar a todos os campos e a todos os significados. E tudo, assim, passou a ter uma natureza viral. Exemplificando, o sexo já não está no sexo, mas em toda parte; o político já não está no político, mas infecta todos os domínios. Cada categoria, assim, passa por uma transição de fase, em que sua essência se dilui em doses homeopáticas, a seguir infinitesimais, na solução de conjunto, até desaparecer e não deixar senão um vestígio indistinto, como na memória da água. Quando tudo é político nada mais é político, e a palavra já não tem sentido; quando tudo é sexual, nada mais é sexual, e o sexo perde toda a determinação; quando tudo é estético, nada mais é belo, nem feio, e a própria arte desaparece. 11
O jogo de Baudrillard é belo, mas ele traz uma desesperança que situa alguma perda longínqua. Na verdade, nada desaparece; o que há sob toda obra é o momento de seu vigor e o momento de sua aguda superação. E não se trata, como em Nietzsche, de dizer “que o homem atual está perdendo ou já perdeu a sua capacidade valorativa e, portanto, perdeu sua humanidade”.12 Se o pensamento não tem capacidade digestiva para conviver com as situações ou acontecimentos mais diversos, chega-se aos sintomas de rejeição, de intolerância, e daí deduz-se a necessidade, logo possibilidade, de um melhor em relação ao que existe.13 O Pós-moderno é a transparência da modernidade, então aberta à sujeira, ao pó, à abundância, à beleza, ou ao nojo. Mas em que tempo não se passou por tais quadros? Até mesmo na dureza do facio, se se pudesse abrir as portas que guardavam o cidadão comum e, ainda, se se pudesse tocar nos sonhos desse pequeno cidadão, teríamos figuras tão loucas como as que sobrevoavam as mentes dos artistas, dos insanos, e dos célebres ditadores. Há tempo pra cada acontecimento. E agora, no moderno que se quer como pós, opera-se a mais ampla abertura de tudo. E nem por isso estamos a sós, sem leitura, sem criação, sem operar, à espera do fim. O que é problemático “é que os indivíduos, tais como são, tornaram-se exatamente o que eles são (...) o que fazem é executado o mais perfeitamente possível, já que não há eventualidade diferente; nenhuma instância, nenhuma essência, nenhuma substância pessoal digna de uma expressão singular”.14
O que temos, na verdade, é a presença da ocasião pós-moderna, onde o que existe existe, e sobrevém à sua anterior existência, sem precisar considerar cada fase ou momento como sucessivo, ligado (...) sempre orientado para uma finalidade ideal.15 A ocasião pós-moderna, assim, traz um discurso de várias leituras, onde se dá a secularização de toda norma, seja estética, científica, ou moral, não assegurando nenhum consenso. O que essa ocasião fez foi afastar-se cada vez mais do mundo tradicional. Assim, expressa que os modelos pré-estabelecidos de análise cultural são defeituosos, e que algo está ocorrendo, algo que se move em alguma parte, e esse algo pode se traduzir como “uma espécie de consciência em busca de sentido”. 16
Ao contrário de Habermas, que projeta a razão moderna nos termos de uma teoria do consenso, tentando no âmbito da ocasião pós-moderna um último pensamento reconciliador, onde, ainda, seria possível a unidade da verdade, da liberdade e da justiça, essa nova ocasião homologa-se num consenso, o de unmaking. Porém, um unmaking sem a natureza do que quer Baudrillard, isto é, de esgotamento, de fim, ou de que tudo já chegou e de que não há mais nada a esperar.
Não se pode querer para o universo pós-moderno o que Baudelaire acusou para a jovem modernidade, então, vista sob o efêmero, o fugidio, o contingente. Hoje, se se encontra o efêmero, há na ocasião em que o efêmero se apresenta uma lógica superior à sua própria presença. É preciso distinguir a qualidade da vida moderna e seus signos, e a qualidade do pós-moderno e sua paisagem. O unmaking, agora, não é passagem ou, simplesmente, uma lógica de suspensão de signos. Agora, o unmaking é a própria ocasião pós-moderna.
Vivemos num momento antinômico, que assume um vasto processo de unmaking, em que a desconstrução promove a liberação de todas as formas, linhas, cores, e concepções estéticas, mixando todas as culturas e todos os estilos. Neste momento, como saber distinguir – se é que ainda cabe essa retórica de desejo – o quê (de cada coisa ou objeto que se move no âmbito do materialismo mercantil e de uma semi-urgia professa através da publicidade, da mídia, e das imagens) é o mais marginal, o mais banal ou o mais obsceno, se tudo é estética ou vive num circuito de advertisement cultural?
Se se recorrer aos argumentos clássicos para se mover na pós-modernidade, não se perceberá que o sistema funciona não tanto pela mais-valia da mercadoria, mas pela mais-valia estética dos signos. Como quer Baudrillard, “vertigem eclética das formas, vertigem eclética dos prazeres: já não era essa a figura do barroco. No entanto, no barroco a vertigem do artifício é uma vertigem carnal”.17 Hoje o que se pressente é que algo desapareceu por trás de cada uma das imagens contemporâneas. E as imagens são apenas isso: o vestígio de algo que desapareceu. Que desapareceu, que se oculta e que continua aí, celebrando o seu próprio corpo por sobre alguma língua.
Se há um grande reino que brilha, então exuberante, é preciso que se aprenda a abandonar as formas platônicas que sempre recusam o reino estabelecido, graças à memória que revela o caráter usurpador da convenção presente.18 Tanto se quis a liberação total do homem em todos os planos que, no momento em que nos aproximamos dela no pós-moderno, tudo se apresenta irreal, irracional e contraditório. Eis, nestes traços, um dos elementos mais caracterizadores da paisagem pós-moderna: o da ocasião de encontro. Quem se encontra? O homem e seus caprichos; o homem e suas máscaras; o homem e sua língua.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1. WEELMER, A. "La Dialéctica de la Modernidad y Postmodernidad". In: Picó, J. Modernidad y Postmodernidad. op. cit. p. 105 2. Idem., p. 106 3. BALLESTEROS, J. Postmodernidad: decadencia o resistencia. Madrid, Tecnos, 1990. p. 86 4. ROSSET, C. Lógica do Pior. Rio de Janeiro, Espaço Tempo, 1989. p. 117-118 5. BAUDRILLARD, J. A Transparência do Mal. Campinas, Papirus, 1992. p. 11 6. Idem., p. 10 7. JAMESON, F. Pós-Modernidade e Sociedade de Consumo. Novos Estudos CEBRAP, São Paulo, n. 12, pp 16-26 8. FINKIELKRAULT, A. A Derrota do Pensamento. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1988. pp. 145-146 9. BLOOM, A. O Declínio da Cultura Ocidental - Da crise da universidade à crise da sociedade. 4a. Ed. São Paulo, Best Seller, 1989. p. 81 10. BAUDRILLARD, J. A Transparência do Mal. op. cit. p. 11 11. Idem., p. 14 12. BLOOM, A. O Declínio da Cultura Ocidental. op. cit. p. 248 13. ROSSET, C. Lógica do Pior. op. cit. pp. 180-181 14. BAUDRILLARD, J. De Um Fragmento a Outro. São Paulo, Zouk, 2003. p. 143 15. Idem., p. 39 16. PICÓ, J. Modernidad y Postmodernidad. Madrid, Alianza Editorial, 1988. p. 23 17. BAUDRILLARD, J. A Transparência do Mal. op. cit. p. 24 18. ROSSET, C. A Anti-Natureza - elementos para uma filosofia trágica. Rio de Janeiro, Espaço Tempo, 1989. p. 227
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