V O L T A R 

O museu e seu público no mundo “contaminado”


Na produção e difusão múltipla da imagem na vida corrente, a diluição da hierarquia cultural consensual e de uma noção linear e progressista da história, tem mostrado que a arte, a cultura popular e erudita pode ser tudo, qualquer coisa. E tudo pode ser arte, na medida em que for eleita como tal. O valor da arte não é imanente – como se acreditou por muito tempo –, mas produção cultural simbólica. Um quadro caucasiano ou um texto russo podem não significar nada para aquele que não dominar seus códigos, não conhecer a “passagem” correta para suas leituras; conseqüentemente, seu olhar será diferente daquele que sabe seu valor, ou melhor dizendo, domina o código, conhece sua história e pode ver na obra esse valor. Do contrário, a arte pode passar como simplesmente ‘interessante’, ‘pitoresca’ ou ‘diferente’ e ser vista como algo semelhante a algumas experiências de assistir à televisão, em que a vulgarização do sagrado, através da justaposição aleatória de informações, modifica o conteúdo do que está sendo visto, sem configurar exatamente um juízo de valor. Quando alguém diz que uma obra de arte é ‘interessante’, está dizendo que aquilo a sua frente significa nada ou muito pouco em relação ao que ela espera de uma “verdadeira obra de arte”. A “verdadeira obra de arte” tem aura, é original, autêntica, bonita... é sagrada, deve, portanto, ser mantida e exposta em lugar adequado, para um público adequado, relacionado a tudo o que se diz da Arte ao longo da História. O ‘interessante’ e o ‘pitoresco’ revelam o distanciamento existente entre o objeto e quem o está vendo, revelam o descontentamento pela quebra da expectativa do familiarizado, do agradável, do palatável, mas, principalmente, do compreensível. A percepção é um elemento fundamental ao gosto, e não é à toa que a mídia interfere tanto na eleição do que é ou não de valor.

 

Mas será que os agentes culturais se transformam em simples intérpretes do exótico e do banal? É o completo fim do sagrado? Não necessariamente: alguns espetáculos televisivos, como funerais, concertos de rock, eleições, campeonatos de futebol e jogos olímpicos, por exemplo, podem inclusive intensificar o sentido de sagrado, pois a televisão trouxe consigo a consciência do simulacro, da virtualidade, mas manteve instrumentos para a fabricação de tradições, cultos e conexões transnacionais. A televisão, e os meios de comunicação em geral, destruíram a hegemonia da sacralização ortodoxa em nome de uma religião de práticas sociais que criam e recriam símbolos sagrados, no tempo e na efemeridade de um clic.

 

Porém, a idéia de que a cultura midiática regula totalmente o consumo desconsidera o comportamento dos consumidores e as desigualdades econômicas e culturais que limitam tais ações. Na maioria das vezes, as pessoas sabem a diferença entre as coisas, os produtos e a realidade. Sabem também qual a sua própria realidade. Não se deve pensar o público como uma massa culturalmente dopada, subestimar sua formação, nem cair na celebração de sua liberdade total de escolha. E, para que haja diálogo entre o museu e o público, é preciso levar em consideração as formas culturais que resumem as interações e interesses dos produtores – seus propósitos e suas relações com produtos, patrocinadores, artistas, etc. – e a diversidade de gostos, interesses e linguagens de seu público.

 

A televisão não é o mundo, mas o representa com uma constância e intensidade que justifica seu papel de escola paralela. Perigoso? Sim, a produção de massa traz condicionamentos à sociedade: viver, cozinhar, comer, vestir, casar, morrer. Mas, ao contrário do que se poderia pensar, a televisão não é exatamente um instrumento de educação alienada, que promove a ignorância pela pasteurização da vida em cenas de comerciais de sabão e programas de auditório, não cria gratuitamente um universo massificado para a manipulação exclusiva dos diretores e anunciantes de TV; é preciso considerar também a televisão como um absorvente de informação e cultura, reflexo de uma dinâmica – comercial e modista, não importa – cotidiana da cidade, das famílias, dos shoppings. Edgar Morin vai dizer que “nossa relação com o mundo exterior passa não apenas pelas mídias informacionais, mas também por nossos sistemas de idéias, que recebem, filtram, fazem uma triagem daquilo que as mídias nos trazem. Em relação às coisas sobre as quais não temos opinião formada ou preconceito, somos extremamente suscetíveis às informações”. Processa-se, portanto, uma espécie de sistema circular contínuo, em que os agentes culturais produzem o que o público produz daquilo que recebe daqueles que produzem... Conversar, assistir, trabalhar, consumir, fazer sexo, são atividades exercidas na difusão dos meios de comunicação e filtradas diversificadamente, conforme o habitus de classe específico de cada um.  Os modos de recepção da informação são tão diversos quanto sua difusão.

 

Enfrentamos hoje novos processos de produção industrial e eletrônica, de circulação massiva e transnacional e, conseqüentemente, novos tipos de recepção e apropriação. Na medida em que cresce o domínio do homem sobre esses infinitos meios de informação, opera-se uma mudança no próprio homem, e na percepção daquilo que ele produz. A chave, então, está no processo de seleção e interpretação da informação. O museu pode dar essa chave, servir de interface entre o arcabouço cultural do conhecimento erudito e o cotidiano.

 

 

 



Alexandre Dias Ramos, é editor e curador independente, formado em Artes Plásticas pela ECA, com especialização em Arte-Educação pelo NACE e em Museologia pelo MAC, mestre em Sociologia da Cultura pela FE, todos na Universidade de São Paulo. É também doutorando em "História, Teoria e Crítica" pelo Instituto de Artes da UFRGS, membro do conselho da Fundação Vera Chaves Barcellos e professor convidado na FAU da PUC-RS.
É autor de Mídia e Arte: aberturas contemporâneas, organizador de Metamorfopsia da Educação: hiatos de uma aprendizagem real e Sobre o Ofício do Curador



 

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