Entrevista com o poeta Lourenço Dreyer

por João Paulo Rodrigues


1) O fato de ter crescido em uma pequena cidade (Teutônia) influenciou no seu tempo e forma de contemplação do mundo? E isso, no seu modo de ver, influenciou sua percepção e sua maneira de escrever?

Sim, certamente influenciou. A cidade pequena, onde vigora com mais força a tirania da opinião pública, com suas limitações antiquadas, fez com que eu desejasse muito viver em uma grande cidade. Mas a realização desse desejo foi meio decepcionante: as pessoas são as mesmas em qualquer lugar, não mudam muito. Talvez por isso tenha me tornado imune àquela idéia primária, segundo Borges, de que todas as épocas são iguais ou de que são diferentes. As coisas mais importantes estão muito além dos limites do passado ou da modernidade.

2) Você acha que com o apoio à leitura que o governo federal tem implementado o público de poesia vai deixar de ser tão restrito, ou que esse apoio servirá para aproximar o público da literatura produzida na atualidade, tendo em vista que as preferências populares na maioria das vezes se contrapõem a incentivos culturais?

O público leitor de poesia é e sempre foi restrito, em qualquer lugar do mundo. No Brasil é ainda menor, porque nenhum tipo de literatura tem muito público por aqui. No mais, sou um individualista: não acho que mudanças desse porte estejam ao alcance do governo. Além do mais, nunca vi o governo fazer algo de bom pela literatura, em nenhum lugar do mundo.

3) Você acha que estar nesse grande centro de cultura brasileiro, que é Porto Alegre, te incentivou a ser escritor?

Não sei. Apesar de ser uma cidade meio provinciana, Porto Alegre realmente se mantém culturalmente viva, às vezes até mesmo agitada. Mas a minha decisão de ser escritor está mais ligada à solidão, ao isolamento, à insatisfação em relação ao que nos é oferecido pela sociedade, em qualquer lugar do mundo. É essa insatisfação que me leva a escrever, a criar meu próprio mundo. Mas, mesmo assim, é indispensável encontrar pessoas que possam apreciar esse trabalho...

4) Seu livro foi publicado por uma editora que, pode-se perceber por suas publicações, trata muito da discussão da contemporaneidade. Qual é a importância para você, como autor, que sua obra esteja inserida em uma linha editorial que dialoga com a sua produção de poesia, também contemporânea?

Eu me sinto muito bem por ver meu livro inserido entre as publicações dessa editora. Ver a minha obra dentro de um contexto adequado, entre obras cuja qualidade consigo avaliar, de certa forma, me ajuda a não desesperar da possibilidade de ser compreendido e de me compreender dentro da atualidade. Em outras palavras, faz com que eu me sinta mais real.

5) É muito interessante como você cria uma forma de amarrar os poemas de “Sombras sem nome”, repetindo versos no decorrer do livro. Dessa maneira, você dá uma nova leitura ao verso, por estar, naquele momento, banhado de outro cenário e outro ritmo. Que tipo de relação você deseja criar com o leitor quando faz isso?

Trata-se de uma brincadeira com a origem musical da poesia, com as funções do refrão. É uma brincadeira porque, na verdade, minha poesia é escrita para ser impressa e lida, dificilmente poderia ser cantada. Mas não quero deixar de trabalhar com essas origens, de repensá-las, tentando mantê-las presentes de alguma forma.

6) Suas “sombras” parecem ser suas memórias e impressões do tempo contemporâneo, que vão e voltam como ondas – aliás, muito recorrentes em seus poemas –; também existe um silêncio que sempre ronda: nos versos, por entre os poemas, nas páginas em branco e nos indícios de desenhos. No entanto, tais sombras, silêncios e ondas não parecem elementos do contemporâneo. Como explicar isso?

Acho que essas sombras, ondas e silêncios são, sim, elementos do contemporâneo, na medida em que não existe ainda uma definição completa do que é ou não contemporâneo. O passado ainda se projeta sobre a atualidade, e muito do que é contemporâneo se funda sobre bases antigas, que ainda não foram substituídas por outras mais adequadas. Além disso, acho que o que é realmente contemporâneo, justamente por estar ainda em construção e indefinido, muitas vezes só pode ser apreendido através do contraste com o passado, e por isso mantenho em meus poemas vários elementos do século XIX, por exemplo.

7) Quais as dificuldades e alegrias que um jovem escritor encontra no decorrer de sua profissão?

A alegria de escrever é algo que só quem escreve conhece: é belo como uma religião, mas individual; e, como as religiões, provavelmente se funda sobre nada, inconseqüentemente. Nesse sentido, proporciona toda a emoção de dedicar a vida a um projeto que, antes de mais nada, é uma aposta – seu valor não pode ser medido de antemão... A maior dificuldade é a inserção social desse projeto, é fazer com que essa aposta tenha valor no jogo dos outros – porque não satisfaz a necessidade de eficiência imediata que caracteriza a sociedade contemporânea. 


Lourenço Dreyer
é autor do livro Sombras Sem Nome.

João Paulo Rodrigues
é escritor e crítico literário na Paraíba





Copyright © Zouk Editora