Os textos que aqui publicamos apontam para diferentes olhares sobre a realidade cubana através de diferentes formações, pontos de partida e conclusões. Esta diversidade saudável, nos parece ser, atualmente, também necessária. Precisamente, por isso, também mantivemos os textos em sua língua original ou ainda na mescla das línguas originais.
Como temos uma predominância sobre o foco educacional, abrimos com o artigo de Edna Telles sobre as características do Sistema Educacional Cubano e o fascínio que o atingimento de metas tão esperadas por nós, brasileiros, como a erradicação do analfabetismo e a amplitude da cobertura educacional, exercem sobre as nossas análises. Mas, por outro lado, coloca sob suspeita a formação patriótica e de disciplina militar que, por seu turno, educacionalmente, mantém o sistema político: 'as escolas ‘transpiram’ revolução ' com o culto à personalidade mantido pelos quadros, faixas, outdoors e monumentos.
Em seguida, temos o artículo do vice-cônsul para assuntos de Educação do Consulado de Cuba no Brasil, Victor Manuel Cortina Bover que nos retrata a tercera revolución educacional em Cuba. Com dados inquestionáveis, o professor Bover traça um perfil da abrangência educacional e dos desdobramentos que a Revolução de 1959 enfrenta no século XXI com programas de ensino a distância, equipamento multimídia e informatização. No mesmo espírito de José Martí na máxima: 'ser culto es el único modo de ser libre ', Bover acentua o papel preponderante que o acesso igualitário, a produção artística e a experiência estética vão desenhando nas políticas públicas cubanas no tocante à educação e, em especial, com atenção ao jovem e sua responsabilidade social, com o novo conceito de 'emprego de estudar '. Reafirma, ao final, a preocupação do governo cubano na formação inicial, formação permanente e formação investigativa de professores e professoras em Cuba.
Em outro artículo, nuestro hermano, Doctor José Antonio Morales Martinez, da Facultad de Ciências Médicas Enrique Cabrera do Instituto Superior de Ciências Médicas de La Habana, com quem dividimos charlas sérias e divertidas sobre o imaginário social, nos brinda com um sério e provocador panorama da saúde pública em Cuba. Tendo em vista o Programa de Saúde da Família – implementado gradualmente no Brasil em vários estados – ter como fonte de inspiração o modelo cubano, seu artigo nos esclarece as bases sociais de tal programa. Muito além da formação de um 'médico de família ', cuja clínica geral não se furta ao generalismo inconseqüente e nem na miopia anti-social das especializações acadêmicas, sua atuação social como agente comunitário é que respalda o sistema de saúde.
Como bem nos lembra o professor Martinez, 'os cubanos vivem como pobres, mas morrem como ricos ', pois os males associados à miséria foram erradicados. As moléstias que se sobressaem são, precisamente, aquelas relacionadas à vida contemporânea, sedentária e estressante. Curiosamente, também no plano da saúde pública, Cuba se vê diante dos problemas da alta tecnologia para suprir as deficiências na informatização do Sistema. Mas, algo é 'tradicional '... O ser humano está sempre no horizonte dos objetivos a serem alcançados: consolidar as conquistas sociais, desenvolvimento sustentado e modernização do Sistema. Martinez, com sua fina ironia afirma com relação à taxa de mortalidade infantil em Cuba: 'ainda que bloqueados temos, em nossa Capital, melhores indicadores do que os bloqueadores '. E finaliza acentuando o papel internacional que Cuba desempenha em biotecnologia (produção de vacinas) e atuação de corpos médicos cubanos no auxílio a outros países hermanos.
A ANA – Associação Nossa América, no artigo seguinte questiona o sentido de Cuba para uma América livre e justa como preconizado nos sonhos libertários e unificadores de Simon BolíDim e José Martí. Sem abandonar a utopia, ressaltam as contradições com o modelo turístico para o 'período especial ' como forma de captação de dólares. Tal introdução gera conflitos internos que tangenciam o núcleo do problema na gestão participativa e democrática e do arrefecimento do modelo estatal centralizador. Assim, apelam para a reinvenção das idéias de transformação social e de revolução, para além das esquerdas burocratizadas.
Se, de um lado o centralismo estatal cubano sugere uma maior participação e decisão na gestão pública, de outro apresenta, sintomaticamente, velhos problemas que perpassam as sociedades capitalistas em suas concepções excludentes e de confinamento. Isis Longo, nos apresenta, em seu artigo sobre as Escolas de Conduta em Cuba, exatamente, o centro nevrálgico destas reflexões. Situando, historicamente, as práticas de internação e exclusão, desde a Roda dos Enjeitados até as Febem’s no Brasil, Ísis compara o modelo cubano com a árdua defesa do ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente e conclui, de maneira crítica e independente, com a discrepância entre a utopia socialista de seres fraternos e a permanência de instituições autoritárias, como todas as 'Naus dos Loucos ', excluindo os 'diferentes' ainda mais para lá...
De um ponto de vista mais antropológico, Carolina Bezerra nos oferta sua visão sobre as culturas latinoamericanas e o sentido de 'Cubanidade', o modo de ser cubano. Articulando sua sensibilidade à inspiração bachelardiana e durandiana, nos fornece uma 'trama' imaginária que, com toda carga subversiva de profundas reflexões, nos mostra como este arcabouço ancestral organiza nossa realidade. Com grande dose poética, amparada nos mestres poetas cubanos, Nicolas Guillén e Silvio Rodriguez, Carolina nos desfia um colar que, muito mais do que adorna, nos identifica e nos afirma como somos. Também bailarina, Carolina, dança no texto como candela que: 'El cuarto de Tula, le pongó candela. Se quedó dormida y... no apagó la vela '.1
Ao contrário de apagar-se, sua chama nos convida, na pena de Guillén, a permear a visão 'con ojos de piedra y água ', a contemplar o que fica e o que se vai.
Ao final, temos as memórias do grupo de educadoras, Andréia, Edna, Ísis, Juliana e Marili em sua permanência na Ilha de Fidel. Deliciosas memórias que, com o frescor da juventude das descobertas, mas também com a maturidade de reflexões 'socraticamente' irônicas, vão desenhando ante nossos olhos atentos no texto as imagens de Cuba no seu murmúrio cotidiano. Lições de necessárias transgressões, a jovialidade nos refresca a alma com o fogo curioso do olhar penetrando na sala de estar dos cubanos, dividindo um 'morrito' no bar em que GueDim a tomou o seu, acompanhando a marcha contra o bloqueio... palpitando a vida no coração do seu dia-a-dia... iniciação.