V O L T A R 
Paraisópolis: caminhos de vida e morte
José Marques Sarmento

Eu vi, eu matei, eu esfaqueei! Com as faces amedrontadas, experimentando horrores à presença dos cadáveres mudando sempre de lugar e, às vezes, desaparecendo, se deixa entregar à labuta de caDim a sepultura para enterrar os mortos pendurados à parede, com os braços erguidos e amarrados, de pescoços derreados para um dos lados. Os dois corpos parecem mais um, não fora as duas cabeças pendidas para lados opostos. Visão de horror! Bom seria para os jornais sensacionalistas, as emissoras de televisão e toda a mídia. Estampado estaria em cores berrantes e letras graúdas na primeira página convidando os transeuntes a se deliciarem. Em letras grandes e coloridas o texto: Mulher grávida e amante são flagrados e mortos pelo marido.

A derradeira de uma série de picaretadas no piso colorido de cimento vermelhão faz com que a ferramenta voe, partindo-se o cabo bem no pé, indo entrar entre as duas cabeças a azougada picareta. Ao voar, encontrara seu lugar de descanso, ficando cravada na emenda entre duas folhas de tábuas. Rápido chega até a ferramenta e a retira, se assustando com os olhares fulminantes dos mortos. Trazendo-a para si, quase cai para trás com o susto tomado. Sentando-se à cama ainda não refeito do susto, pega a faca e começa a desbastar o cabo da ferramenta, para novamente fazê-lo voltar a seu lugar de origem. Arrancando pequenas lascas da madeira, viaja mais uma vez à sua criancice e juventude, quando ouvia, do dizer dos mais velhos, as suas estórias, informando-o de que nascera sob um pé de juazeiro, próximo a uma grande pedreira, cujas pedras foram dinamitadas e despedaçadas para servir à construção de uma grande barragem. Estes pormenores dos pensamentos, indà terra onde nascera, o acompanham para onde vai desde que e vira afastado dos seus familiares. Dos bons e maus momentos vividos ao lado da família que lhe dera origem é um dependente assíduo. Dos avós aos tios, todos, e os amigos, faz somatórias apocalípticas na memória. Atrelado às coisas de um passado não muito distante, este está sempre lhe cobrando sem lhe deixar dividendos para usufruí-los no futuro. Pensa nesse passado simplesmente pelo fato de ter nascido um eterno saudosista. Após o término da obra do açude, o pai construíra sua casinha de taipa ao pé da alta pedreira que o impelia medos tenebrosos ao cantar das aves de rapina à boquinha da noite, quando voltavam para os ninhos após as caçadas pelos matagais. Acende um cigarro curtindo-o pacas, solta a fumaça em baforadas, que sai rodopiando, fazendo um círculo no ar, sendo levada embora, se dissipando, indo de encontro à lâmpada do teto, que ajuda a iluminar de amarelo opaco o ambiente sórdido, de certa forma estilizado por cores fortes. Uma golada da branquinha para lhe por coragem a prosseguir perseguindo objetivos começados que, por enquanto, foram em vão. Lentamente a faca retorna a desbastar o cabo da ferramenta, sendo que, de instante em instante, experimenta se o objeto de manuseio cede ao espaço a ser preenchido. Cedeu, bateu ao chão, apertou-o com a cunha de madeira, bate novamente ao chão para arrochá-la mais ainda. Está pronta, firme para encarar novamente o piçarrento chão.

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José Marques Sarmento, nasceu na Paraíba, mora em São Paulo desde 1977 e trabalha como eletricista cinematográfico. Apesar de ter concluído sua alfabetização aos 14 anos, é autor de seis intrigantes romances.
É autor do livro A Revolução dos Corvos, O Seqüestro do Negativo Exposto, Paraisópolis: caminhos de vida e morte e Urbanóides: um caos paulistano




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